Múltiplo Jô
Remix em Pessoa é o nome do CD de Jô Soares que virou espetáculo. Poderia ser o título da sua biografia. Jô é um remix em pessoa – e explica, rindo, seus diversos talentos: “O artista é meu orixá de cabeça”
Jô Soares, ou José Eugenio Soares, recebeu a equipe da Revista da Cultura com o mesmo calor com que recebe seus convidados da TV em seu iluminado e amplo apartamento no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Pessoalmente, exibe sem pretensão seu bom gosto, seu refinado humor e seus conhecimentos sobre assuntos de todas as naturezas: história, artes plásticas, política, cultura geral, literatura, cinema e teatro, para citar alguns. O “cenário” da entrevista era formado por livros e mais livros, que vão dos grandes clássicos a Sidney Sheldon, computador e som de última geração, poucas fotos e, na parede, uma curiosa tela de sua autoria, “Retrato de Nietszche na Casa de seu Filho”.
De cara, fez questão de mostrar faixas de sua mais nova produção, o CD Remix em Pessoa, em que poemas de Fernando Pessoa, falados por Jô, foram musicados com originalidade e deram origem a um show encenado no Teatro Eva Herz.
Enquanto isso, aguarda o início dos ensaios da peça Eclipse, sobre a vida da atriz Eleonora Duse, escrita e protagonizada por Jandira Martins e dirigida por ele.
Na década de 1950, Jô inicia sua carreira como ator no cinema. Na TV, estréia na Record em 1967 com a inesquecível “Família Trapo”, em que atuava e escrevia os roteiros com Carlos Alberto Nóbrega. Ainda na emissora, Jô participa em 1974 de uma versão musical de “Os três porquinhos”. Ele, é claro, fez um deles, e o rei Roberto Carlos, o papel de Lobo Mau. Já na TV Globo, Jô estréia no primeiro humorístico da emissora, o “Faça Humor, Não Faça Guerra”, seguido por “Satiricom”, “Planeta dos Homens” e “Viva o Gordo”. Personagens marcantes, engraçados e inteligentes, que entraram por anos em nossas casas para nos fazer rir e relaxar.
No SBT com o seu “Jô Soares Onze e Meia” permanece até 1999 e, de volta à Rede Globo, o “Programa do Jô” atinge em 2006 a marca de 10 mil entrevistas com a presença de Marcelo Tas. Em 2008, seu programa completa 20 anos de existência.
Jô é também pintor – até com exposição em Bienal –, roteirista, diretor de teatro, ator, cronista, comediante, entrevistador, autor de obras que se transformam em filmes. Isso reunido em um artista multidisciplinar que, segundo suas palavras, realiza tudo com igual prazer – estes são os seus hobbies. Jô transita por áreas aparentemente desconexas – mas que não são. “Na verdade, é como a mão com os dedos. E cada dedo é uma expressão artística”, ele resume.
Com uma memória invejável, cita passagens e eventos, tanto pessoais quanto históricos, de civilizações, épocas e acontecimentos diferentes e, assim como em suas entrevistas, ele vai costurando um assunto ao outro sem nunca perder o fio da meada. Com direito a uma calorosa despedida com um “beijo do Gordo”, ele deu a entrevista a seguir.
Remix em Pessoa é seu primeiro CD? Não, também gravei um com o Sexteto, mas é o primeiro nessa linha. Depois da gravação, veio a idéia de fazer o espetáculo, que na verdade é o CD ampliado. São 12 poemas musicados, mas no palco há uma ampliação física. A Bete Coelho, que o dirige, é extremamente criativa. E na hora em que vamos para o palco, damos uma dimensão maior do que a coisa só falada. O bonito é que houve uma integração muito grande do músico Billy Forghieri com a obra do Fernando Pessoa. É surpreendente: temos lá hip-hop, rock, jazz, Bach, valsa… Os poemas foram escolhidos por mim e, das 12 faixas, 10 são do Álvaro de Campos (heterônimo de Pessoa), com quem mais me identifico, por seu humor.
Como surgiu a idéia? Estava entrevistando o pessoal da Blitz, e o Billy, que faz parte do grupo, falou que a família dele tinha ligações com o Carlos Drummond de Andrade, e, por brincadeira, ele pegou alguns poemas e os musicou. Eu perguntei se ele não topava fazer uma experiência do gênero com o Fernando Pessoa; topou, e a Performance, uma gravadora pequena, se entusiasmou com o projeto. Depois resolvemos fazer o espetáculo. O interessante é que só consigo declamar Pessoa criando um personagem. E mantive as palavras originais, pois há algumas que não dá para dizer em “brasileiro”, como algibeira e enxovalho. Mas com sotaque português elas vieram naturalmente.
Fale um pouco de suas preferências literárias. Não tenho “livros de cabeceira” – nem Pequeno Príncipe nem a Bíblia (risos), posso garantir. Mas faço uma coisa curiosa: leio dois simultaneamente. No momento, estou com a mania de ler, ao mesmo tempo, um de ficção e um de não-ficção. Mas sou muito eclético, não tenho preferência por gêneros: vou de Hemingway a Dostoiévsky, contos, romances, poemas, e tenho lido muitas biografias também. No momento, estou lendo Inventing a Nation, de Gore Vidal. Estou lendo também a biografia que ele escreveu de Alexander Hamilton. Ah, e a biografia romanceada do imperador romano Juliano. Gostaria que meu próximo livro se passasse na Roma Antiga… Ainda estou pensando sobre ele.
Como você escolhe os livros que lê? Pela internet. Tenho três prazeres: primeiro, descobri-los, depois, ir à livraria comprá-los – nada substitui o prazer de pegá-los, apalpá-los –, e depois, lê-los. Eu nunca saio da loja com menos de oito ou nove livros. Certa vez, em Nova York, saí da loja com 12 livros.
Como foi que você decidiu escrever romance? Na verdade, comecei a juntar alguns fatos na cabeça. Li em uma biografia da Sarah Bernhardt que ela veio três vezes ao Brasil, uma delas na época de D. Pedro II. Pensei: isso dá um bom romance. Aí imaginei que poderia haver um furto e ela pediria ajuda a Sherlock Holmes. Fui checar datas: a primeira visita dela foi em 1886, e a primeira história do detetive havia surgido em 1888. Continuei pesquisando: fatos, jóias, violinos, todos os elementos que entraram no livro. “Mas ainda está meio insosso”, pensei. Preciso de um serial killer matando pessoas. Liguei para o José Rubem Fonseca e disse: “Estou com uma idéia para você escrever um livro, e acho que vai ficar ótimo”. Ele ouviu a história, gostou e disse: “Muito bom, mas é você quem vai escrever…”. “Eu não”, respondi, “tenho um respeito tão grande pela literatura, não tenho coragem”. E ele, generoso: “Larga dessa preguiça, vai me mandando, vou comentando…”. Já sobre O homem que matou Getúlio Vargas, a sugestão veio do editor Luis Schwarcz. Ele perguntou por que eu não fazia um livro sobre um assassinato político no Brasil. Aí comecei: “e se não fosse um suicídio, mas um assassinato sobre o qual ninguém tivesse conhecimento?”… E foi por aí. Comecei a checar datas, o movimento anarquista da época, as sociedades secretas… Eu adoro esse livro, porque atravessa 40 anos de história. Meus três romances publicados têm muito de pesquisa por trás, algo que adoro fazer.

O que há de comum em tudo isso? Eu! (risos) Minha cabeça. Sou filho único, nasci quando minha mãe já tinha 40 anos. Estudei fora do país dos 12 aos 17 anos. Pensei muito em seguir carreira diplomática, dizia que iria parar no Itamaraty. Naquela época, tinha até feito exame para as universidades Oxford e Cambridge para cursar literatura e história. Antes que pudesse fazer isso, meu pai, que era corretor da Bolsa de Valores, perdeu tudo. De repente, minha família foi morar em um apartamento de quarto-e-sala. Eu poderia ter enlouquecido, mas vi como eles tiraram de letra. Papai dizia para minha mãe: “Temos comida para amanhã, vamos tratar de depois de amanhã”. Diante dessa maneira de encarar a vida, eu não poderia ter entrado em depressão. Então, eu fui morar em um quarto alugado e já andava, nessa época, com pessoal de teatro, freqüentava eventos artísticos, e o envolvimento foi crescendo. Papai e mamãe sempre adoraram o caminho que tomei. Acho que as mães sempre têm pequenas coisas que deixam os filhos irritados. A minha me deixava louco quando entrava no táxi e dizia: “Sabe de quem sou mãe?” (risos). Minha família é totalmente “brazuca”: a do meu pai veio da Paraíba, a da minha mãe, do Rio de Janeiro. De qualquer forma, tudo o que faço são prolongamentos da mesma coisa. Como se fosse a mão com os dedos e, cada dedo, uma forma artística de se manifestar. Minha característica maior é o humor, não como piada, mas como visão do mundo. Isso está até na minha pintura, que está longe de ser acadêmica. Não consigo ter uma preocupação intelectual sobre o que faço. O que me move é o artista. Ser intelectual para mim é usar isso como uma tela aberta. Tenho uma inquietação sobre as coisas, mas o meu orixá de cabeça é o artista. Veja a história do CD: tive a idéia e depois veio a possibilidade do espetáculo. São coisas que pintam. De repente, penso em escrever um livro baseado na Roma Antiga, mas isso pode mudar para a Segunda Guerra Mundial.
Como veio a idéia do livro? Só consigo escrever um livro quando sei como acaba, pois escrevo de trás para diante. Ou seja, primeiro penso no desfecho. Uma coisa curiosa: nos meus livros há sempre um anão. Adoro anões e me identifico com eles. Gordos e anões têm muito em comum, pois o mundo não foi feito para eles (risos). O anão tem problemas em relação a telefones públicos, botões altos de elevador, mictórios etc. Já gordo pode entalar numa roleta de ônibus, quebrar uma cadeira…
Você foi comediante na época da ditadura. Tem histórias? São tantas, seja no teatro como ator ou diretor, na televisão e até nas artes plásticas. Não participei da Bienal de 69 porque minha proposta não foi aprovada. Era uma chapa branca de automóvel gigantesca, cuja numeração correspondia à data do golpe militar, e a plaquinha pequena dizia: Distrito Federal. Há um outro caso engraçado. Tínhamos um quadro no “Faça Humor, Não Faça Guerra” com o personagem Gandola. Um fulano ia pedir emprego e ofereciam de faxineiro. Ele virava os olhos e dizia: “Olha, quem me mandou aqui foi o Gandola…”. E, a cada vez que dizia isso, ganhava um cargo mais alto. Depois de um ano e meio com o quadro no ar, descobriram que gandola é o nome de uma túnica do exército e tiraram do ar. Também queriam proibir o Capitão Gay, quadro do “Planeta dos Homens”. Foi engraçado, porque o diretor artístico não queria colocar no ar, sabia que ia dar problema. Fui falar com o Boni. “Pôxa, estamos nos censurando antes mesmo da censura.” Ele então contou que, em Brasília, havia um coronel gay prestes a ser nomeado e que isso podia criar uma associação. Mesmo assim, arriscamos. O quadro foi um estouro e, seis meses depois, estava embarcando no Aeroporto Santos Dumont e um sujeito me chamou. Fui ver quem era: o tal coronel gay em pessoa! (risos) Ele elogiou muito o quadro.
Por que seu programa de entrevistas se iniciou no SBT, e não na Globo? Porque, na época, o Boni achava que ficaria difícil encaixar na programação e que o formato não daria certo no Brasil. Nesse tipo de programa, não adianta botar “helicópteros”: ele sempre é a respeito de quem está atrás da mesa. Por isso ele se renova a partir das entrevistas, com pequenas alterações de formato. No meu programa não há camisa de força: às vezes tenho um entrevistado, às vezes dois. Mas comediante eu sou sempre, mesmo quando entrevisto. Os grandes atores americanos que fazem os grandes filmes dramáticos são comediantes. É possível ser ator sem ser comediante, mas para ser comediante tem de ser ator, é a mesma ferramenta. Outra coisa: eu sou um artista antes de ter qualquer pretensão intelectual. No SBT, certa vez o Silvio Santos me deu uma carona e disse: “Preciso confessar que, quando você veio para cá, eu tinha certo receio. Todos diziam que você era muito intelectual e isso me dava medo”. Eu respondi: “Sou intelectual coisa nenhuma, as pessoas são muito maldosas”. (risos) Ele estava certo: os intelectuais a que se referiu eram os eruditos, não os cultos. O cara que absorve cultura é uma coisa. Já o papagaio, não, ele é um chato mesmo. (risos)
Falando em chato, o assédio aborrece? Eu saio muito pelo bairro e acho que o contato com os fãs é parte daquilo que eu gosto de fazer. E pense bem: é sempre alguém que vem com um sorriso. Chato não é exclusividade de quem é conhecido; todo mundo tem seus chatos. Acho que a média de chatos por pessoa não muda. (risos) Faço uma brincadeira, quando vou ao shopping e me pedem um autógrafo: entrego um cartão que já tenho pronto. Estão lá meu logo, o beijo do gordo, meu autógrafo. Fica uma coisa engraçada, a pessoa sai rindo.
Você se sente numa “saia justa” quando o entrevistado não entra no clima da entrevista? Eu não, ele talvez… (risos) Uma vez entrevistei o Quércia, e ele disse que “não tinha o rabo preso”. Passei a entrevista inteira olhando atrás do sofá. Já escrevi em diversas mídias impressas, como Última Hora, Veja, Folha de S. Paulo, mas a minha vantagem é que, como comediante, posso usar de um humor que o jornalista tradicional não pode. Eles não têm a vantagem de já ter feito tantos anos de programa de humor a ponto de as pessoas as conhecerem. Meus entrevistados já riram comigo e isso abre um grande leque de possibilidades. Outra coisa: desde o começo, decidi que chamaria todos de “você”. Quebrei a cabeça para chegar a esta decisão. No Brasil, é claro que esse tratamento não é de respeito, é de diferenciação de classe social. E chamar todo mundo de você funcionou. O engraçado é que entrevistei o Octavio Gouvêa de Bulhões, que estava com cerca de 90 anos. Parênteses: no Congresso, as pessoas se xingam se chamando de Vossa Excelência. “Vossa Excelência é um ladrão!” (risos) Depois o Otto Lara Resende ligou e disse: “Jô, não chame o doutor Bulhões de você. Ele tem 90 e tantos anos”. Respondi que não podia diferenciá-lo. Semanas depois, entrevistei Luís Carlos Prestes chamando-o de você. Ele entrou no clima e criou uma intimidade tão grande que acabou dizendo algo que nunca falou antes: “O grande amor da minha vida foi a Olga”. Fico até arrepiado, foi uma confidência! Ele nunca a havia chamado de “grande amor”. Provavelmente nem para ela mesma. (risos)
Fale um pouco sobre a peça Eclipse, que você vai dirigir. A atriz Eleonora Duse, personagem principal da peça, veio ao Brasil duas vezes. Durante uma dessas visitas, houve um eclipse da lua, daí o título. A peça é muito bonita e tem humor, uma força dramática incrível. E a Jandira Martins, que me convidou para dirigi-la, é uma grande atriz. Duse teve uma paixão irreversível pelo Gabrielle d´Annunzio e fez todas as peças dele, menos a última, pois ele achou que ela não tinha idade para fazer. E foi esse o grande sucesso dele. Era um poeta fanático, maluco e fascista! Tinha uma admiração enorme pelo Mussolini e, quando morreu, deixou uma orelha dele de herança. (risos)
Como você relaxa? O que faço já é meu hobby. Gosto de viajar e vou muito a Nova York e Paris. Mas algo que me relaxa especialmente é o cinema. Minha única preferência é por filmes bons, pois os assisto com minha sensibilidade, não com minha cabeça. Vi há pouco o documentário do João Moreira Salles, “Santiago”, chorei muito. Choro que nem uma vaca, mas não por tristeza. Morreu o Paulo Autran, e fui ao velório. Não consegui chorar, eu estava triste demais para chorar. Choro por emoção, lendo um livro, assistindo a futebol… Só de contar para alguém sobre um filme emocionante, eu já choro. O “Tropa de Elite”, que também vi recentemente, achei sensacional. Aliás, tem uma coisa curiosa: quando entrevisto um político do PSDB, ele acha que sou do PT. Se é do PT, diz que estou do lado do PSDB. É um bom sinal, pois sou um anarquista no bom sentido. Para mim, artista não deve ter partido.
Revista da Cultura – Edição 05 – dezembro de 2007
Fonte: Livraria Cultura





